A palavra leucemia, quando pronunciada, tanto durante uma consulta médica quanto em uma conversa informal, logicamente causa sensação de ansiedade e, muitas vezes, até pânico! E não é prá menos, visto que remete ao conceito de uma doença grave e muito comentada em novelas, filmes, livros, etc. Mas na realidade, qual deveria ser o entendimento desse grupo de doenças que muitas pessoas acreditam que seja uma sentença de morte?
Na minha prática diária da Hematologia, costumo fazer uma analogia entre leucemia e atropelamento! Atropelamento pode ser por trem, caminhão, carro ou bicicleta! Cada um com as suas conseqüências características, de fatais a um leve arranhão. Leucemia também.

Primeiramente, vale ressaltar que as leucemias consistem em um grupo de doenças, cuja classificação se dá pelo tipo de célula envolvida em uma proliferação descontrolada, e que ocupa o lugar do crescimento das células normais do nosso sangue. A palavra leucemia vem do grego, juntando leukos (branco) e hemia (sangue), significando, portanto, aumento de glóbulos brancos no sangue.

Para entendermos um pouco melhor, é preciso dizer que as células do sangue são produzidas dentro dos nossos ossos, em um órgão chamado Medula Óssea, e consistem em 3 linhagens ou séries: Os glóbulos vermelhos, que nos dá energia, os glóbulos brancos, que nos dá imunidade e as plaquetas, que ajudam no nosso processo de coagulação, evitando hemorragias. Quando um glóbulo branco, ou seus precursores, crescem descontroladamente, ou deixam de morrer na época programada, eles podem acumular na medula óssea ou no sangue, impedindo que as células normais sejam produzidas, causando os sinais e sintomas clássicos das leucemias, que são anemia, fraqueza e palidez, pela falta de glóbulos vermelhos, febre e infecções de repetição, por falta ou função prejudicada dos glóbulos brancos, e sangramentos e manchas roxas na pele, pela falta de plaquetas.

Mas como já escrevi no início, não é uma doença específica, mas sim, um grupo de doenças que podem ser classificadas de acordo com o tipo de célula envolvida nessa proliferação e, também, da origem dessa linhagem celular doente. Dessa maneira, podemos classificar as leucemias conforme a origem das células em mielóides ou linfóides e, dependendo da idade e comportamento das células, em agudas, envolvendo células mais jovens e com proliferação rápida, ou crônicas, quando se tratar de células mais maduras e com proliferação mais lenta.

As leucemias agudas são geralmente as mais graves e exigem tratamento mais intenso, com quimioterapias e, muitas vezes, até transplante de medula óssea. As crônicas, geralmente são mais insidiosas, com tratamentos mais brandos e evolução mais arrastada, e, em algumas situações, nem necessitam de tratamento, imediato ou tardio, bastando somente observação e atenção a sinais que possam exigir intervenções terapêuticas específicas, sendo esse último conceito, aplicável em parte dos pacientes acometidos de leucemia linfóide crônica, que é o tema desse texto.
A Leucemia linfoide crônica (LLC) pode ser definida como um acúmulo progressivo de linfócitos longevos, envelhecidos, funcionalmente incompetentes para a função de defesa corporal, que “esqueceram” de morrer, pois grande parte das células do nosso corpo tem um tempo de vida programado, para serem substituídas por células jovens.

É a forma mais comum de leucemia em adultos no ocidente, chegando a 24% de todas as leucemias. É uma doença característica da idade avançada, com incidência de mais de 20 casos por 100.000 habitantes acima dos 70 anos nos Estados Unidos, porém, ultimamente, está sendo diagnosticada também em pacientes mais jovens, até na 3a década de vida. A média de idade ao diagnóstico é de 55 anos, com maior incidência em homens, com proporção de 1,7 homem para cada mulher acometida. É raramente vista em japoneses, chineses e população de outros países asiáticos.

Sua evolução e curso clínico são extremamente variáveis. Alguns pacientes podem apresentar rápida deterioração clínica, com sobrevida curta, enquanto que outros apresentam uma evolução muito benigna, de curso indolente e vivem além de 20 anos do diagnóstico sem maiores complicações, com tratamentos específicos e, às vezes, até sem qualquer tratamento, dependendo da evolução. Esse comportamento acontece em cerca de 30 a 60% dos casos de leucemia linfóide crônica.

O acompanhamento dos pacientes com leucemia linfóide crônica por médico hematologista, em longo prazo, é de fundamental importância, para que se possa identificar sinais e fatores evolutivos que remetam à necessidade de abordagem terapêutica adequada a cada situação.
Os tratamentos para a leucemia linfóide crônica envolvem acompanhamento, medicações específicas como imunoterapia, quimioterapia ou medicamentos de terapia alvo, isto é, direcionados ao tipo específico de célula envolvida e, muito raramente, transplante de medula óssea.
Voltando ao começo, salvo exceções, podemos refazer a analogia das leucemias com atropelamentos, sendo geralmente as leucemias mielóides agudas mais graves, correspondendo a atropelamentos por trem, enquanto que as leucemias linfóides crônicas, a por bicicletas, sempre lembrando que há sobreviventes a atropelamentos de trem e quem não sobrevive aos de bicicleta.

Importante ressaltar que, atualmente, todos os tipos de leucemia são controláveis e até curáveis com tratamentos específicos, oferecendo sobrevidas longas e com qualidade.

Leucemia Linfóide Crônica

Agende sua consulta online

Convênios

Convênios